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Quarta-feira, Agosto 31, 2005

Espera

Os dias vindouros vão sendo, não de hoje, montados. Um a um, como o quebra-cabeças da infância. Centenas, talvez milhares de peças que, sozinhas, não fazem muito sentido para quem as vê de longe. Mas quem as manuseia sabe que a cada um lhe cabe um lugar, um encaixe com outra peça. E disso surgem blocos, fileiras, figuras e traços. Até que temos uma paisagem completa, com tudo aquilo que se esperava. Flores, árvores, rios, estradas e trilhas. Algo que já se via na própria caixa, uma prévia do que nos aguarda o futuro, aqui sempre limpo, belo e brilhante.
Ou ainda: uma planta de construção, formada por linhas harmoniosas e ângulos precisos, sem deixar de ser, ao mesmo tempo, inventivos e belos. O retrato de um plano próximo, que por mais bem previsto que seja, sempre nos surpreende, nos arrebata, com cada nova descoberta e cada bom momento, reservado pelas pequenas coisas. Aquelas que sempre valem mais, muito mais do que aparentam.
Talvez os dias futuros sejam uma bela viagem, onde mesmo as passagens mais prosaicas ganham contornos de instantes inesquecíveis. Os minutos especiais ganham uma trilha sonora, e cada conversa, cada beijo e abraço se eternizam de todas as formas possíveis, prontos para se materializarem sempre que invocados. E serem repetidos sempre que a saudade bater mais forte.
Enfim, os próximos dias podem assumir formas mil, cada qual mais especial em sua maneira de ser, mas todas elas trarão sempre a mesma marca de algo que irá se estender, até perder-se de vista.

postado por Fábio, 1:23 PM |

Terça-feira, Agosto 02, 2005

Caixas

Ele abre a caixa, onde deposita suas mais recentes lembranças. Frases, versos, imagens e sons. Tudo isso representado em vários e pequenos objetos, recheados de uma letra redonda e bonita. Mexe em alguns envelopes, folhas, cartões e fotos ali guardados. Evidentemente, há muito mais coisas contidas ali do que se pode supor à primeira vista.
Sempre gostara de caixas. Guardara nelas todas as coisas que possuía, desde criança. Começou na mais tenra idade, guardando seus brinquedos e carrinhos. Em seguida, suas figurinhas, times de botão e bolinhas de gude. Depois, seus livros, cadernos e trabalhos escolares.
O tempo passou e novas prioridades surgiram em sua vida, conseqüentemente, mais coisas a serem guardadas, mas as caixas continuavam ali, guardando agora disquetes, manuais, cartilhas. Suas caixas guardavam mais que simples objetos. Eram também a síntese de sua personalidade e um registro de sua evolução, de sua passagem da infância para a adolescência e desta para a vida adulta. Ali ele guardava hobbies recentes e outros nem tanto. Amigos novos e antigos. Nas caixas ele guardou seus recortes de jornais com matérias sobre futebol, as revistas de video game, as publicações musicais, os livros e os CDS.
Lembrou daquilo enquanto remexia em sua mais nova caixa, cheia de coisas novas, mas ainda com muito espaço a ser preenchido. Uma nova caixa, que surge em tempos de estantes, escrivaninhas, armários, racks. Era como se ele voltasse no tempo e voltasse a ser o mesmo garoto de antes, que amava as coisas ao seu redor como ninguém mais. Mas afinal, era assim que se sentia: guardando pequenos tesouros que não têm preço, mas que podem ser vistos e lembrados a todo instante.
Era uma nova caixa, sim. Com muito espaço a ser preenchido, nos dias vindouros. Muitos objetos ainda iriam integrar naquele espaço, assim como hoje o faz uma pequena pulseira azul, grande como só as coisas discretas sabem ser.

postado por Fábio, 11:14 AM |