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Layout by Luciana C.
Sábado, Abril 30, 2005

As ruas estão agitadas, cheias de barulho, carros e gente. Mas estão todos carrancudos. O céu está cinzento e uma fina garoa cobre leventemente o ar. Aos poucos dá pra sentir o casaco cada vez mais úmido. Passo a mão sobre ele, o que obviamente não resolve o problema.
Os carros passam com velocidade. A rua é irregular e alguns minutos bastam para que as poças brotem como flores em um campo fértil. Um carro joga água para todos os lados, mas não me acerta. A água passa perto o bastante, no entanto, para chamar a minha atenção e me tirar do estado de quase transe. Paro e olho, mas alguns segundos bastam para que eu não veja mais nada. Todas as imagens como que ficam estáticas, sem movimento, sem calor, sem vida.
Esqueço então as poças, os carros e todo o resto. Afinal de contas, estarei molhado de qualquer forma. E o piloto automático sempre me impediu de ser atingido por algum veículo, não importa se eu estivesse dormindo ou apenas distraído. Continuo então a pensar em quilômetros e metros, meses e segundos.
O tempo, de repente, parece que resolveu ser meu companheiro de todos os dias, comportando-se de acordo com meu estado de espírito. E ultimamente os dias vêm se alternando entre o calor inclemente e a chuva incômoda. Esta mesma que surge no lugar da fina garoa e começa a me molhar a alma. E fico a pensar por quanto tempo o sol esteve brilhando e o quanto eu me senti feliz por
poder viver aquele calor.
Olho mais uma vez para cima. As nuvens vão se acumulando e não parecem estar dispostas a dar trégua. Desisto de escapar dela e apenas caminho, como já fazia anteriormente. Cada vez mais absorto em pensamentos. E esperando, antes mesmo de chegar o inverno, que chegue a primavera. E assim, farei de tudo para esquecer o outono, que tanto aprecio. E aguardo as próximas estações com um fervor ainda maior que o de costume.

postado por Fábio, 2:01 PM |

Segunda-feira, Abril 25, 2005

Meninas beges


Audrey Tautou

postado por Fábio, 12:45 PM |

Quinta-feira, Abril 14, 2005

Clichê

O clichê é o caminho mais verdadeiro para se dizer o que pensa, talvez porque seja quase sempre uma tradução da realidade. Assim como Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser, diz que o destino do ser humano é o kistch, podemos dizer que o clichê também é uma marca indelével do bicho homem. Mas fique atento, porque todo kistch é clichê, mas nem sempre o inverso é verdadeiro.
O clichê é importante porque em toda idéia há uma lacuna, uma coisa que falta, seja para fundamentar, seja para simplesmente explicá-la. E ali estará o clichê, esse eterno incompreendido, para nos salvar a pátria. E para fazer as coisas serem entendidas como devem. Em suma, para botar ordem na casa.
Ele é fundamental porque serve para exprimir aquilo que você deseja falar e por algum escrúpulo, não o faz. Seja ele timidez, medo do ridículo, de se expor ou mesmo de não parecer original. Mas nem sempre original é ser autêntico. Porque sua verdadeira personalidade pode estar entre o gosto comum, de vez em quando. Como quando se olha para um belo pôr-do-sol, quando se
banha em um cachoeira. Ou quando se sente uma gostosa e sonora brisa, em um mirante.
E podemos, sim, colecionar alguns clichês para nosso uso pessoal. Guardar em um pote, ou em um álbum, uma porção deles, para serem usados e lembrados sempre que a situação exigir. Como por exemplo, quando encontrarem um outro apanhado, porque os bons clichês ficam melhores sempre que estão acompanhados.

postado por Fábio, 1:44 PM |

Terça-feira, Abril 05, 2005

Caminhava tranqüilo, observando as pessoas caminharem apressadas, sempre olhando para baixo. Ele sorriu, não porque as pessoas andavam carrancudas, mas por estar em sua avenida preferida. Um lugar do qual gostava tanto a ponto de pegar várias conduções apenas para chegar até lá. Algumas vezes para ir ao cinema. Em outras, para ir às livrarias e lojas de CDs. Mas não raro seguia até lá apenas e tão somente para caminhar, assoviando alguma música, e observar as coisas e pessoas. E para lembrar.
Sempre que as lembranças, fossem elas boas ou ruins, lhe vinham à mente, aquele lugar servia como uma referência imediata. Talvez porque ali tenha vivido algumas das suas melhores passagens recentes. E então cada passo por aquelas calçadas compridas, largas e ruidosas servia para pintar com tintas mais vivas todos aqueles dias, todas aquelas noites. Para sentir em sua pele as mesmas sensações, como se estivessem acontecendo naquele exato momento.
E ele caminhava, caminhava até se sentir satisfeito ao ver algum corredor, algum luminoso ou outdoor, onde notaria alguma imagem ou slogan que fosse solidário ao seu estado de espírito. Às vezes encontrava. Se enternecia e, logo após dar um sorriso, voltaria a caminhar. Olhava para os lados e se reconhecia nas vitrines, refletida com um sorriso estampado no rosto ou nos olhos arregalados,
caretas feitas como se estivesse trancado no banheiro, se examinando no espelho. E continuava a assoviar, a cantar, enquanto apreciava os transeuntes como se fossem espécies exóticas.
E sentiu as mãos quentes, porque assim elas deveriam estar naquele momento, enquanto caminhava pela sua avenida preferida. Mãos impregnadas de calor humano, de beleza e felicidade. Colocou as mãos no bolso e seguiu, em direção à sua casa. Ou a outro lugar onde as mãos, os lábios e os olhos pudessem estar embebidos em afeto.

postado por Fábio, 1:01 PM |