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Layout by Luciana C.
Quarta-feira, Março 30, 2005

Minha vida daria um post

É natural, em dado momento, imaginarmos situações, fantasiarmos acontecimentos. Criar, dentro de nossas cabeças, como serão os instantes futuros, carregando-os de tintas belas, como aqueles indefectíveis filmes de final feliz. Mas o que dizer quando percebemos que cada momento da realidade pode ser ainda mais sublime que qualquer bela situação criada pela nossa imaginação?
Às vezes isso acontece, e o torpor é quase imediato. Assim foi neste feriadão prolongado. Antes do amanhecer, aquela velha expectativa, pouco antes de chegar à pequena cidade. Durante o dia, passeios agradabilíssimos, belas paisagens. Tudo acompanhado de músicas mil, sendo cantadas ou simplesmente lembradas, em cada passo, em cada rua. As imagens explodem em cores vivas, nas matas, nas trilhas, montanhas e cachoeiras.
As sensações ali surgidas, no entanto, vinham de forma ainda mais intensa, por conta de todas as particularidades da viagem. Ou melhor, de um único fator, matriz de todo o que viria depois: a presença de uma pessoa capaz de te fazer sorrir horas seguidas, dando a impressão de que a vida é tão suave e feliz como num comercial de margarina e tão animada quanto num anúncio de refrigerante. Com ela, a canção tem mais melodia, os passeios são mais agradáveis, as paisagens são mais belas.
Antes do por do sol, já na volta, a impressão de que vivemos uma viagem especial, que serão guardadas com carinho num canto reservado de nossas memórias, para serem trazidas à tona sempre que necessário.
Mas, claro, sempre com a expectativa de ter sido a primeira de muitas. Porque nos faz sempre seguir em frente é a convicção de o caminho ainda persistir, à medida em que continuamos. E se o trajeto sabe ser tão maraviloso, porque não continuar a andar?

postado por Fábio, 12:59 PM |

Segunda-feira, Março 14, 2005

Histórias de Estação - Final

Por breves segundos, voltaram à situação anterior: ela olhando para o chão, como se acompanhasse o caminhar de uma tropa de pequenos insetos, ele a olhar fixamente pro céu. Ambos com o mesmo olhar desolado de outrora. Ele, no entanto, decidiu romper o silêncio:

- Na verdade, eu imaginava que precisava partir, correr, fugir. Mas agora percebo que quero mesmo é uma conversa.
- Para falar a verdade, penso da mesma forma.
- Acho que, ao menos por agora, nos bastamos, não?

E mais não disseram. A transmissão de energia fora restabelecida e o trem já se aproximava da plataforma. Ambos se levantaram para embarcar juntos, quando o celular dela apitou rapidamente. Ela se deteve para checar. Era uma mensagem de texto. De repente, ela ganhou uma expressão assustada, um misto de desalento e angústia. Provavelmente provocada pela dúvida.

- Você vai pegar este trem? - perguntou o homem à moça.

Ela permaneceu alguns segundos olhando para o celular antes de fitá-lo e responder:

- Não, sinto muito, mas recebi um recado. Vou voltar, mudança de planos...
- Ok, então. Boa sorte.
- Obrigada. Boa viagem.

Ele embarcou no trem, permaneceu atrás das portas quando elas fecharam e permaneceu olhando para a mulher. Ela, no entanto, permanecia com os olhos grudados na tela do celular. Virou-se para observar o trem apenas quando este, após alguns minutos estacionado além do necessário se colocou em movimento. Leu novamente a mensagem do seu telefone, e só então lembrou-se das resoluções que havia tomado ao chegar na estação. Nunca mais crer, nunca mais se iludir. Descobriu que mais uma vez não conseguia ser forte o suficiente.
Depois de refletir por alguns segundos, resolveu afinal continuar na estação, aguardando o próximo trem e ignorando os apelos eletrônicos de quem tirou as estrelas do seu céu.

Voltou novamente seus olhos para o comboio que partira, mas este já estava fora de seu campo de visão. E nesse exato instante fora tomada pela forte idéia de que, por não ter embarcado por causa da dúvida, havia perdido muito mais que os minutos que separavam um trem de outro.

postado por Fábio, 9:09 PM |

Terça-feira, Março 08, 2005

Histórias de Estação - IV

Após sorrirem brevemente, eles permaneceram alguns segundos em silêncio, cada um olhando para um lado diferente, pensando nas mesmas coisas. Ela se pronunciou, após soltar um longo suspiro:

- O que me incomoda mesmo é esse trem, que não tem hora pra aparecer. Como se eu não tivesse mais nenhum problema...
- Digo o mesmo. Parece que os contratempos marcam a hora de aparecerem, para que cheguem todos em cascata, ao mesmo tempo - ele não havia reparado, mas pronunciou a palavra "contratempo" de uma forma diferente do restante da fala, o que deu à ela um nítido sentido de eufemismo.
- É... contratempos... estamos sempre lidando com eles, né? São um carma. - respondeu ela, por sua vez.

De repente, fitaram-se longamente. Pareciam ter percebido que os "contratempos" de ambos era o mesmo, ambos sofrendo dos mesmos males: a ingenuidade, a fraqueza, a traição. De repente, sem que nenhum dos dois tivessem dito mais nada. Em seguida, foi a vez de ele quebrar o silêncio, seguindo a seqüência da conversa.

- Eu já não consigo lidar com os meus, estou fugindo deles, agora.
- Ah, então você está aqui pra fugir?
- Sim, podemos dizer que sim. Pretendo ir bem longe para ter certeza que os deixei para trás.
- Gostaria de ter coragem para fazer o mesmo.
- Desculpe se sou intrometido, mas... porque não tenta?
- Porque simplesmente não sei para onde devo fugir...
- Eu ainda não sei também... só sei que tem de ser para bem longe.
- Às vezes ir para longe não nos afasta dos problemas, e sim o isolamento.
- É verdade. Mas se pensar muito nisso, vou apenas me atormentar com dúvidas.
- Pior será correr demais, se afastar e ver que nada adiantou... É preciso ver o que a gente realmente pretende fazer.

Calaram-se, um pouco por timidez e outro tanto por receio de terem filosofado demais. Não é de bom tom nem ao menos recomedável divagar sobre certos assuntos com desconhecidos, por mais que se reconheçam em algum momento como iguais.

CONTINUA...

postado por Fábio, 11:16 AM |

Quarta-feira, Março 02, 2005

Histórias de Estação - III

Ela estava totalmente alheia ao mundo, sentada no banco da estação como se não houvesse mais nada a fazer na vida. Entregou-se àquele assento com triste resignação. Permaneceu com os olhos baixos, lamentosos e úmidos.
Alguns minutos depois, porém, fora desperta de seu torpor pelo jornal atirado ruidosamente no cesto de lixo ali próximo. De repente, reconheceu um olhar tão deprimido quanto o seu na pessoa que se encontrava ao seu lado. Este, no entanto, olhava insistentemente para cima, como que a esperar uma boa nova vinda do céu. Ela o fitou por alguns segundos e voltou ao seu estado anterior.
E assim ficaram por um bom tempo, até que os auto-falantes da estação se fizeram ouvir, com uma notícia desagradável: uma queda na transmissão de energia interrompeu a circulação dos trens por tempo indeterminado.
O anúncio os tirou do estado de letargia em que se encontravam: foram tomados imediatamente por uma natural irritação pelo enorme atraso que se esboçava. Foi então que ele deu-se pela existência da mulher a seu lado. Ficou constrangido ao perceber que a maleta que carregava ocupava grande espaço no banco.

- Desculpe, não vi que estava sentada. A mala te atrapalhou?
- Imagine. Não se incomode. Mal a percebi, pra falar a verdade.

Ela deu um sorriso, que foi retribuído por ela. Ambos, no entanto, saíram um pouco amarelos, já que nenhum dos dois tinha muito ânimo para rir àquela altura.

CONTINUA...

postado por Fábio, 12:11 PM |