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Layout by Luciana C.
Segunda-feira, Novembro 29, 2004

Tempos desses, escrevi sobre as cores das meninas e algumas ficaram faltando. Resolvi continuar então a aquarela:

Rosa - É como aquele comercial do Jui-C: "Água com açúcar demais". Nem toda menina que adora se vestir de rosa é uma menina rosa, mas o inverso é verdadeiro. Se ainda muito crianças, amam a Sandy, se adolescentes têm sonhos picantes com o Ricky Martin. E as blogueiras adoram deixar comentários do tipo: "aI, QuI foFiNhuuuuuuuu. ViSIta mEu blOguíííííííí".

Marrom - Está sempre com saia rendada, alguns colares, brincos e pulseiras. Ela sempre chama a sua atenção pelo modo de se vestir, provavelmente porque anda com a barriguinha de fora. As coisas que lhe agradam são "tudo de bom", e ela adora falar em "energia", mesmo não estando em aulas de física. Ela até gosta de você, mas vai ficar mesmo é com aquele carinha barbudo
que se parece com o Che Guevara.

Magenta - Fazem publicidade ou webdesign. Aproveitam seus conhecimentos em HTML, Flash e quejandos para bolar templates supimpas para seus cinco blóguis, sem falar nas diversas colaborações para os amigos. Sua CDteca está repleta de coisas como Franz Ferdinand, Libertines e coisas do tipo, mas o que elas têm ouvido sem parar são os discos da Françoise Hardy e do Serge Gainsbourg ("Je T'aime moi non plus", manja?). Seu sonho é morar em São Paulo para freqüentar a Funhouse e o Atari Club toda semana. Já as magentas paulistanas dariam 10 anos da vida para terem nascido em Londres ou, na pior das hipóteses, em Glasgow. Meninas magenta têm uma incrível atração por homens andróginos. Sim, elas são indies!

Vermelha - Usa as roupas mais provocantes possíveis, está sempre de batom vermelho forte e parece ter saído de um comercial. Ela é bem gata, mas em algum momento você vai ter a impressão que ela ficaria melhor sem maquiagem nenhuma. No começo, é legal sair com a menina vermelha, porque todo mundo fica admirando. Mas depois vem o incômodo, porque as pessoas continuam olhando pra ela. Você fica todo feliz porque ela te dá a maior bola, até perceber que ela dá bola pra todo mundo.

Preta - O céu está lindo, os pássaros cantam, vocês estão juntos e felizes. Se bobear, até cheios da grana vocês estão. Mesmo assim, ela está sempre com cara de velório. Seu lema é: "O otimista é um pessimista mal informado" e consegue ver sempre ver o lado negativo até em ganhar sozinho na mega-sena ou numa sessão de sexo tântrico. Aquele seu amigo que perdeu os pais, as duas irmãs e o braço esquerdo consegue ser mais feliz que ela. Você se sente incomodado porque pergunta a ela se tem algo errado, mas não recebe nenhuma resposta plausível. Daí, a conclusão é achar que o problema é contigo, mesmo. As meninas pretas estão sempre com algum band-aid nos braços, geralmente nos pulsos, mas juram de pés juntos que foi resultado de um tombo.

postado por Fábio, 6:57 PM |

Sexta-feira, Novembro 26, 2004

Flowers in the window

Luana abriu a janela suavemente, pronta para receber toda a luz e o calor emanado pelo sol naquela manhã amena. Fechou os olhos e abriu um sorriso, feliz por poder presenciar um belo dia como aquele. Espreguiçou-se em frente à janela e se sentiu como uma personagem de comercial de margarina. Ela riu da comparação, assim que esta lhe veio à mente. Mas ficou ainda mais satisfeita por achar que a alusão procedia. Sentia-se leve, feliz e limpa, sensações não muito freqüentes entre as pessoas que conhecia.
Olhou para a janela, para o quintal e ficou imaginando o que faltava para aquela cena ser perfeita. "Flores", pensou ela. Foi para a entrada de sua casa, onde havia vários vasos, e se deteve a escolher um para colocar na janela. Ficou com o de gerânios. Ou, ao menos, o que ela imaginava que fosse. "Tem cara de gerânio. Então deve ser". Sorriu e colocou o vaso num canto, completando a cena imaginada. "Gerânios", limitou-se a dizer.
Luana tem 26 anos, mas nesse momento, sente-se como se tivesse dez a menos. O céu claro àquela hora era para ela uma representação de seus dias, cada vez mais tranqüilos e felizes. Boas lembranças, belas cartas, mensagens pequenas mas carinhosas. Permaneceu de olhos fechados, aproveitando aquele instante tão comum de abrir a janela e se espreguiçar, mas que naquele momento tinha um significado tão especial.
Luana abriu os olhos, depois de muito tempo. Voltou a fitar o céu, que continuava limpo, azulado, um verdadeiro convite à contemplação, que ela atendeu prontamente. Enquanto olhava para cima, lembrou dos dias atribulados do passado. Por muito tempo ela caminhou em busca de respostas para suas dúvidas. Era tomada pela angústia de saber, de compreender.
E não mediu esforços para tentar compreender a vida: correu os quatro cantos do mundo, leu todos os livros que pôde, conversou com todos os sábios e charlatães que encontrou. Mas nada a satisfazia. Sua sede de saber era incomensurável e isto a fazia sofrer. Até que descobriu que seu maior poço de conhecimento era sua capacidade de sentir, de perceber as coisas. E notou que nessas faculdades estava a resposta para todas as perguntas que buscava.
Agora ela se encontrava feliz em seu quarto, sorrindo e admirando o céu e as flores cujo nome verdadeiro não sabia. As horas correram e o tempo agradável se transformou em calor incômodo. Luana não se impacientou, contudo. Correu a tomar um banho gelado e a cantar suas músicas preferidas, enquanto esperava chegar a noite e o momento em que iria rever a chave de sua alegria.

postado por Fábio, 7:22 PM |

Terça-feira, Novembro 23, 2004

André colecionava de tudo. Figurinhas, revistas, recortes de jornais, fotos. Era um aficionado por ícones pop, de pessoas a coisas. E tudo o que remetesse a essas paixões merecia ser guardado por ele. Cinema, música, teatro, quadrinhos, nada lhe escapava. Frequentava círculos de amigos com as mesmas paixões que ele, e passava o dia falando de suas preferências. Debatia, questionava, discutia asperamente às vezes. Porque o principal subproduto da paixão são os arroubos, as atitudes desmedidas. E ele não estava imune a isso, assim como seus amigos também não estavam.
Também adorava colecionar miudezas: bonecos, enfeites, canetas e afins. Sempre que tinha tempo, André se trancava no quarto e abria seus armários, gavetas e escrivaninhas para contar, limpar e admirar seus objetos de estima.
Num belo dia, sua alma foi tocada por visões belas. Tão belas que acreditou nunca ter visto outras semelhantes. Perdeu-se em devaneios e sonhos. Pensamentos fugidios surgiam a toda hora. E por um momento esqueceu-se de todas as suas coleções. Seus bibelôs, bugigangas e apetrechos foram postos de lado, até serem tomados pelo pó. Não adiantou abrir portas e janelas para arejar o ambiente, porque as teias de aranha e o bolor que dominavam o quarto nada mais eram que a tristeza externada de todos aquelas coisas que, de uma hora para outra, foram abandonadas.
E André passou a se dedicar a um único hobby: colecionar palavras. Quanto mais estreitava seus laços com a beleza, mais palavras brotavam. E cada uma delas era uma senha para um momento, um lugar, uma lembrança. Passou a ter então uma coleção diferente das anteriores, porque não era um indicativo de seus gostos e preferências, mas a manifestação de seus sentimentos e dos momentos que ele acreditava terem sido bons. Era como se fosse ao mesmo tempo um álbum de fotografias e um diário, onde falava de si e do que sentia.
Até que um dia André descobriu que a maldade se esconde em todas as manifestações de beleza. E desfez-se de sua prezada coleção com uma fúria ainda maior que a reservada para defender suas antigas paixões. Um belo dia, reuniu palavra por palavra, escrita em pedaços de papel e guardadas em uma pequena urna, e as foi rasgando, uma por uma. Jogou todas no vaso sanitário e apertou o botão da descarga com toda a força que tinha, como se a pressão extra dos dedos pudesse jogar ainda mais para longe tudos aqueles pedaços de papel.
E voltou para o quarto, onde se trancou. Manteve as portas e janelas fechadas, e por lá ficou, para ficar coberto de poeira e esquecimento, assim como seus antigos objetos de estima.

postado por Fábio, 12:55 PM |

Quarta-feira, Novembro 17, 2004

Todo dia é possível olhar para cima e encontrar belezas insuspeitas. Ou, ao menos, maravilhas que insistimos em ignorar. Como a chuva. Não há melancolia que não brote ao contemplar uma janela em dia chuvoso, em que as gotas caem paralelas umas à outras, quase como uma cortina do lado de fora, permeando a visão que temos da rua, dos edifícios, da cidade. Suspiros surgem inevitavelmente enquanto olhamos para a frente e tentamos enxergar mais além, mesmo que as nuvens escuras e a torrente nos atrapalhem.
Em um dia de chuva tentamos enxergar mais, conhecer mais. Procuramos observar o futuro, enquanto a visão dos dias já idos surgem embaçadas como uma janela molhada. É o momento de nos apoiarmos ao parapeito, mãos apoiando o rosto, e contemplarmos o pouco que há para ver, querendo ver sempre cada vez mais. Até que as primeiras gotas, jogadas pelo vento, nos atinja o rosto e nos chame para a realidade.
Curioso ver como em dias de sol, não há o mesmo ânimo para enxergar além, mesmo com a visão mais clara e límpida à nossa frente. Queremos apenas caminhar ou correr, sentir o dia passar e viver cada segundo como se fosse o último. Já nos dias de chuva, tudo o que temos é a espera e a contemplação, embaladas pelo ruído das gotas d'água que batem ritmadamente no teto.

postado por Fábio, 9:51 PM |

Segunda-feira, Novembro 15, 2004

Porque existem dias em que os olhos pesam mais que o normal. Você anda com dificuldade, os pensamentos andam mais soltos que de costume. Você caminha, mas só pensa em olhar para baixo. De repente, você está sem forças para prosseguir, tampouco para erguer os olhos. Não adianta tentar, pois sabe que não vai conseguir.
Você se vê alheio e insensível a todas as manifestações de beleza. Os pássaros cantando não te atraem, o céu limpo e belo não te comove. E o sol brilhante chega a ser um fardo. A areia da praia é apenas um estofo para o cansaço. As idéias se foram há muito e tudo o que lhe resta é um corpo e alma vazias.
O dia está apenas no seu começo, mas tudo o que você quer fazer é deitar, se encolher e assim permanecer, por longos dias. Não quer ouvir nem falar com ninguém. Apenas se concentrar em sua dor e torcer para que ela se vá logo. E pesar todos os seus atos e omissões, para se arrepender de várias coisas.

Pois. A ressaca é mesmo uma porcaria!

postado por Fábio, 2:02 PM |

Quinta-feira, Novembro 11, 2004

Meninas Beges



Suzanne Vega

postado por Fábio, 2:52 PM |

Segunda-feira, Novembro 08, 2004

Simão sentou-se no chão, cansado de caminhar. Queria também cansar de tanto ficar pensando nas coisas, na vida, nas pessoas. Queria passar um dia simplesmente sem pensar em nada. Talvez fosse pedir demais. Mas uma ou duas horas sem pensar em nada não seria mal.
As pernas lhe doíam, tanto quanto sua cabeça. E tratou de descansar ao menos as pernas, pois a estas ele sabia como dar alento. Pegou um graveto e passou alguns segundos olhando pra ele. Resolveu se levantar, caminhar mais um pouquinho e ir à praia, onde poderia escrever na areia.
Sentou-se novamente e ficou olhando fixamente para o mar. Encontrou pontos pequenos ao longe, quase no horizonte e tentava identificá-los. Por um momento se tocou que a vida se resumia a isso. Encontrar coisas ao longe e tentar descobrir o que são. Em alguns momentos, tenta-se também alcançá-las, mesmo sem saber do que se trata. Ou justamente para identificá-las.
Ainda com o graveto na mão, ele pôs-se a escrever na areia. Nomes, frases, idéias. Encontrou ali uma forma de esvaziar a cabeça. Mas incomodou-se com alguns nomes que escreveu, quase que automaticamente na areia. Abriu mão do graveto e passou a mão com força sobre os nomes, para apagá-los.
Voltou seus olhos para o mar e se lembrou dos pontos distantes no mar. E da sua vida, que se tornara uma busca por pontos desconhecidos.

- Será que eu chegarei aos pontos? Ou afundarei antes de chegar até lá? Talvez eu desista no meio do caminho e volte.

Gastou alguns minutos pensando no que havia dito. E só bem mais tarde é que se tocou que podia acontecer outra coisa: ele chegaria ao ponto desejado e se sentiria impelido a seguir ainda mais em frente. Seja porque o ponto encontrado o decepcionara de alguma forma, seja porque encontrara outros pontos ainda mais distantes. Talvez por ainda encontrar força para seguir e nada que o prendesse à terra firme.

Por um momento, sentiu-se limpo, como se realmente todos os nomes e idéias saíssem de sua mente e permanecessem impregnados naquela faixa de areia fina e clara. Estava também descansado. Levantou-se e continuou a caminhar. Desta vez pela areia, pensando na vida, nos pontos e nas pessoas.

postado por Fábio, 10:50 AM |

Segunda-feira, Novembro 01, 2004

Dúvidas

Queria ouvir belas canções e tê-las como trilha, sem me sentir piegas, ingênuo ou precipitado. Que os momentos de saudade fossem correspondidos, que frases fossem ditas e aparelhos trinassem à noite. Sentir as gotas da chuva, me lembrar de momentos especiais e ter certeza de que mesmo estes podem ser superados.
Bom seria entender o que se passa. Soprar com força e jogar para longe toda a névoa da dúvida, que cobre meu olhos, me atordoa e torna menos firme meu caminhar. Olhar para frente e fitar um caminho inteiro, definido. Seja uma avenida movimentada ou a calmaria de uma praia em dia nublado. Entender ausências e esquecimentos. Queria não ter de pedir.
Tudo o que eu queria era ter certeza que os dizeres não são banais.

postado por Fábio, 1:32 PM |