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Layout by Luciana C.
Sábado, Outubro 30, 2004

Não se apague esta noite
Meu quarto está escuro
Sem estrelas para iluminar
Visão encoberta por um muro
E paz tornada em penar

Não se vá esta noite
É tempo de dançar no quarto
E esperar por um trinado
Quero sair, mas não é hoje que parto
Tento aguardar, até ser lembrado

Não se espante essa noite
Em que conto as palavras, os minutos
As horas sem dormir
As árvores sem frutos
E os dias que estão por vir

postado por Fábio, 9:55 AM |

Quarta-feira, Outubro 27, 2004

A chuva

As gotas cessaram de cair há muito. O caminho começa a ficar seco, mas o céu continua cinza. Tempo nublado, mas Marcelo consegue ver do outro lado do vidro a faixa de areia, que faz o seu coração bater mais forte.
Alguns minutos de silêncio são inevitáveis. Ele não quer falar sobre isso com ninguém, pois é um momento só seu. As canções, no entanto, tomam sua mente: Los Hermanos, "Toxic Girl", Velvet Underground... não lhe faltam momentos belos para lembrar. Frase especiais que foram ditas e ouvidas. Lidas, também. Quando voltasse ao seu quarto, haveria de fechar as portas e janelas, e
voltaria à sua bela rotina de movimentos constantes.
Marcelo ficou com a lembrança do abraço impregnado em si. Lembrança que guardaria consigo, em um lugar especial. Até que outro abraço chegasse. E este está por vir.
Ele pensa na menina da chuva, que lhe parece cada vez mais próxima, com seu guarda-chuva xadrez. Marcelo lembra do seu sorriso contagiante, da sua voz doce e imagina como serão os dias vindouros. Os atuais têm sido atribulados, pouco tempo para as conversas intensas de sempre. Mas o pensamento continua firme, como sempre.
A menina da chuva continua caminhando devagar, dona que é da faixa de areia contemplada ao longe. E do céu nublado. Por ora, não há gotas caindo do céu, mas Marcelo sabe que a menina da chuva continua a admirá-las, sempre que elas surgirem. Estará ela pensando nas mesmas canções, nos mesmos filmes que ele?

postado por Fábio, 11:57 AM |

Segunda-feira, Outubro 25, 2004

Minha vida daria um post

Oito pessoas viajando, rumo a uma cidade distante, para encontrar amigos queridos. Muitos planos e idéias, muitos sonhos compartilhados. E, claro, muitas cenas imaginadas. Quem nunca o fez, na iminência de um grande momento que está para acontecer? Conosco não poderia ter sido diferente. E, assim como imaginamos, assim aconteceu.
Para cada uma daquelas pessoas que viajaram ou que nos receberam, não faltaram - ou faltarão - momentos belos para lembrar, imortalizados na memória e nas centenas (mesmo!) de imagens captadas. Cada qual com seu instante particular. Mas uma cena talvez seja especial para todos, porque marcou a realização de um sonho conjunto.
Carro lotado. Pessoas se apertando no caminho de volta para casa. A longa viagem estava no fim e cada um se via perdido em seus pensamentos, enquanto o Toca CDs continuava trabalhando. Rostos voltados para a rua, colados ao vidro. E, de repente, uma canção une os pensamentos:

I know you like her
Well, I like her too
I know she likes you
It's not as if I'm being sent off to war
There are worse things in this world...


Aos poucos, o coro se faz presente. Sem combinações prévias, sem ensaio. Preocupações com pronúncias, afinação e outras coisas ficam para trás. De repente, é como se todas aquelas pessoas fossem uma só, com os mesmos pensamentos, com os mesmos sonhos.
Mas, com certeza, uma coisa era a mesma naquele momento: a felicidade de viver um instante há tanto tempo sonhado. Foi possível sentir, no arfar do peito e no olhar de quem ali estava, o quanto tudo aquilo significaria. E o quanto a cena seria lembrada por todos nos anos que estavam por vir.
Cada um teve seu grande momento particular. O meu ainda estava por vir. Mas não é todos os dias que vemos um sonho coletivo se tornar realidade. Eu tive a felicidade de presenciar um.

People say that we'll never change
We'll never change
But I have
You and her in the local newspaper
You will be married and you'll be gone
Married and you'll be gone

postado por Fábio, 3:50 PM |

Quarta-feira, Outubro 20, 2004

Hoje consigo lembrar de um céu, nublado ou não, e ver alguma coisa a mais. E perceber naquele céu ido algo além da Lua branca e redonda e das pequenas e numerosas estrelas que salpicam a visão.
Posso ouvir uma música e perceber algo mais que notas, acordes. Algo além de uma voz, instrumentos e letras, juntas e compassadas. Ou de uma seqüência de canções minuciosamente escolhidas.
Hoje leio mais nas entrelinhas de um cartão, de uma mensagem por e-mail. De uma conversa digitada ao invés de falada. Em cada frase, palavra ou mesmo sílaba. Nas reticências que encerram uma saudação, no lugar das exclamações. Nos números, nas felicitações, nos beijos e abraços enviados. Nas folhas do calendário, que caem.
Mesmo assim, não consigo olhar o que vai à minha frente, pois a visão é encoberta por um espesso nevoeiro. Tão denso que fecha o ar, serve de muro para impedir minha passagem. A névoa me bloqueia, não me deixa passar, tão invencível quanto uma dúvida. Só resta esperar que a névoa se dissipe. E espero lendo, ouvindo e vendo.

postado por Fábio, 5:04 PM |

Segunda-feira, Outubro 18, 2004

Ela nos invade mesmo quando há planejamento. Quando se escolhe a data, o local e tudo o mais, a ansiedade se dá a conhecer no exato instante em que dizemos: "Pronto, agora só nos resta esperar". E até que a areia corra por completo na ampulheta, contaremos segundo por segundo, quilômetro por quilômetro.
E o que dizer então da decisão instantânea? Um cruzar de ligações, de encontros e desencontros, que só aumentam o bater descompassado. Há ainda momentos de contemplação e silêncio. É possível ver as águas, os morros e as cidades por detrás do vidro. E por este podemos nos enxergar: é o reflexo de alguém que está certo do que sente e quer, mesmo sem saber o que lhe espera.
As placas parecem já prontas para ler nosso pensamento. A partir delas, tudo se transforma em dicotomia: norte e sul, terra e mar, perto e longe, dúvidas e certezas. "As dúvidas são pontes que aumentam as distâncias", é o pensamento inevitável. Momento de olhar para os lados e admirar as belezas que nos cercam. Mas a que invade o pensamento ainda não está à vista.
Instantes depois, o mundo pára e as pessoas desaparecem. Todas as vozes - menos uma - se calam. Os momentos e os diálogos pipocam na mente como trechos de um filme especial. De repente, meses se condensam em minutos. Cartas, canções e frases são resumidas em conversas rápidas.
O céu também parece estar em sintonia com os pensamentos, se apresenta como sempre foi imaginado. As emoções se acumulam, as sensações vão se intercalando, cada uma querendo o seu quinhão, os seus instantes. E a ampulheta, que sempre foi vagarosa, resolve mostrar serviço e correr, ä revelia de todos. É sempre assim...
Abraços e olhares valem muito. Mesmo quando, à primeira vista, parecem ser apenas preâmbulos de algo por vir, algo que não se sabe exatamente o que é. Não é o momento de olhar para trás, e sim para frente. Muitos dias estão por vir, novos abraços e olhares também. Por ora, voltemos às placas, ao rosto refletido no vidro fazendo companhia à paisagem. E entre novos
momentos de silêncio, surge a prova de que é possível ter ainda mais felicidade. E saudade, também.

postado por Fábio, 1:09 PM |

Sexta-feira, Outubro 15, 2004

Meninas Beges



Cat Power


Em breve, vou escrever sobre a viagem aqui, claro.

postado por Fábio, 9:42 PM |

Segunda-feira, Outubro 04, 2004

O dia acordou mais belo para ele, que ficou feliz ao saber que a manhã havia sido boa para ela também. Estava contente não só por ter acordado bem disposto e estar envolto pela luz reconfortante do Sol, mas também por ver que às vezes as coisas podem dar certo e que o bem pode vencer de vez em quando. Riu da expressão "do bem" que lhe veio à cabeça e a imaginou meio brega. Mas ao final das contas, era exatamente isso que havia acontecido.
Sentiu ótimo, como há um bom tempo não acontecia. Mas não porque havia se livrado do seu fardo, ou porque este havia se tornado mais leve. Apenas se sentiu mais forte para enfrentar as intempéries, as nuvens escuras e as dúvidas, aquelas velhas pontes que só servem para aumentar as distâncias. Naquele dia, ele era se sentia mais disposto e seguro. Enfim, mais feliz.
Sentiu vontade de perder horas conversando com ela. Queria aproveitar aqueles momentos leves, ensolarados, para falar de coisas boas. Para conversar sobre música em quartos fechados, sobre canções escolhidas e a escolher. Sobre ruas e avenidas, filmes de Truffaut e Godard, trabalhos acadêmicos, linhas arquitetônicas, sobre a lua ou o pôr-do-sol. Ou apenas sobre ambos.
Os encontros foram curtos, infelizmente, mas bastaram para deixá-lo mais contente. Teve então mais motivos para fitar o céu ainda claro, ao final da tarde, e ter consigo que o sol também podia brilhar para ele.

postado por Fábio, 7:55 PM |