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Layout by Luciana C.
Segunda-feira, Junho 28, 2004

Depois de tantos anos caminhando, o andarilho, enfim, resolveu parar. Chamou a atenção de toda a cidade, porque parecia ter andado demais em sua vida. Perguntaram sua idade, ele disse que não sabia. Nunca havia se preocupado com essas coisas. Tudo o que fizera em seus anos foi caminhar, o que se tornou algo tão natural quanto respirar. Não sabia quantos anos tinha, mas podia-se inferir que era bem velho: as rugas se espalhavam aos montes pelo seu rosto, assim como os longos fios de sua barba.
Enfim, resolveu parar, mas não porque estivesse cansado. Poderia andar ainda por muitos anos. Parou porque sentiu, ao chegar naquela cidade, um nó no peito que não soube identificar de imediato. Até que se permitiu ficar por ali durante alguns dias e descobriu que era simplesmente um chamado.
Ele começou visitando muitas cidades, conheceu todos os estados do Brasil e resolveu partir para viagens mais ousadas. Foi a todos os países da América, seguiu então para a Europa e, pouco a pouco, foi visitando os cinco continentes. De repente, uma cidade o retinha, com um magnetismo que não sabia ao certo qual era.
Foi então que descobriu: ele não andava ao léu, como sempre imaginou. Ele procurava. Moveu céus e terras, inconscientemente, em busca de um lugar que fosse seu. Agora que encontrou, ele beija o chão como quem beija uma grande mulher.

postado por Fábio, 3:31 PM |

Sábado, Junho 19, 2004

Em meu pensamento, voam folhas. Secas, hirsutas, cheias de lembranças de uma vida longa. Folhas são o retrato perfeito do passado. Tanto o passado belo, de coisas lindas que queremos reviver, quanto das vicissitudes, que tentamos jogar para sempre pra baixo do tapete.
No meu campo de visão não há folhas verdes, brilhantes. Estas estão longe, em outro lugar, em outro dia. O momento agora é de vento, de folhas amarelecidas, jogadas para todos os lados. Perco minutos, horas, olhando o movimento aleatório delas.
Resolvo caminhar entre elas. Abro os braços, fecho os olhos, e apenas sinto o seu cair. É quando o passado ganha ares épicos, de "melhores momentos da sua vida" e sinto como se tudo estivesse acontecendo novamente. Sinto as mesmas sensações, o mesmo calor, a mesma felicidade. O largo sorriso brota naturalmente de meu rosto, enquanto ergo os braços, agarro algumas das folhas e jogo com ainda mais força para cima. Abro os olhos e vejo todas caídas no chão. O passado voltou a ser passado. Continuo a caminhar, sempre olhando para cima, na vã esperança que alguma delas tenha retardado seu curso e ainda se encontre no ar.

postado por Fábio, 3:22 PM |

Quarta-feira, Junho 16, 2004

Existem vozes

Existem vozes que ecoam, reverberam na mente de maneira constante. Lembram morcegos numa caverna, gritos que se multiplicam no volume, na intensidade. Vozes repetidas e irritantes.
Existem vozes que nos avisam: são demais os perigos desta vida. Não damos ouvidos e dizemos: "nos falta o perigo". E como bons suicidas que somos, o buscamos em vários lugares. Sem acreditar que o perigo sobra em todos os cantos
Existem vozes que nos consolam, que nos embalam, que nos enlevam. Vozes que nos trazem bálsamo onde antes só havia sangue. Luz onde só existia escuridão. Eles se fazem ouvir ao longe, fracamente. E resta a nós caminhar até sua fonte.
Sim, estão por aí, em todo canto, em todos os instantes. Na forma de gritos, sussurros, rasgadas ou sedosas, afinadas ou não. As vozes que fazem de corações e mentes um quadro em branco, esperando para ser preenchido. Abra seus ouvidos.


Meninas Beges



Björk

postado por Fábio, 1:34 PM |

Domingo, Junho 13, 2004

Mais uma velharia...

Uma estrada, um sol, um dia
Todos os caminhos levam ao mesmo destino
De esperar, procurar
Por mais tempo que posso imaginar
Olho as serras com olhos de menino
E me lembro das veredas mais belas

Continuo sonhando
Com uma estrada mais longa
Para caminhar por mais tempo
Não voltar é uma alternativa para ser feliz
Ou ao menos para um alento
Quero te ter mais viva
Em meus dias, em meu pensamento

Um estrada se repete
Nós voltamos, mais cansados
E um pouco mais tristes
O dia acabou
Estamos de volta à velha vida

postado por Fábio, 1:01 PM |

Terça-feira, Junho 08, 2004

- Passei vinte anos me recusando a sair da minha cidade, porque sempre achei que minha vida estava lá. Não acredito que joguei todo esse tempo fora...

Marisa olhou para Carlos e deu um sorriso tão feliz quanto envergonhado. Não sabia o que dizer. A forma direta com que ele falou a deixou sem ação. Ele morava numa cidade grande e sempre usufruiu de todas as coisas boas que ela poderia lhe proporcionar. Recusou propostas de trabalho em outros municípios para lá permanecer. Agora, ele está numa cidade minúscula, longe de qualquer metrópole, mas totalmente satisfeito.

- É incrível como a gente procura as coisas onde elas não estão, Má. Um lugar com tanta gente e nunca encontrei alguém que valesse a pena.

Marisa continuava sorrindo. Não falava nada e nem era preciso. Seus olhos, que brilhavam como faróis, falava por ela. Por alguns minutos, sua mente a levou pra longe daquela mesa e o único contato com o mundo eram suas mãos, que seguravam com firmeza as dele. Passou a se lembrar de quando o encontrou pela primeira vez. No meio de uma movimentada rodovia, ela desesperada ao lado de seu carro com dois pneus furados. Ele, visivelmente contrariado por ter de passar uma semana em uma pequena cidade do interior do estado, por razões profissionais. Apesar do indisfarçável mau humor, foi solícito e trocou os pneus. Um papo rápido e descobriram que tinham o mesmo destino. A conveniência faz com que um fizesse companhia ao outro naquele dia. Nos seguintes, tudo ficou por conta da atração mútua. E o resto é história.
Após a declaração, Carlos calou-se. Ficaram os dois calados, fitando-se por um longo tempo. Por um breve momento, todas as desilusões passadas. O que se foi, morreu. E o que virá ainda não existe. A vida era ali, naquele instante. E ambos estavam a viver como não imaginavam que poderiam, fora dos sonhos.

postado por Fábio, 1:23 PM |

Quinta-feira, Junho 03, 2004

Nádia fez de seu maior problema uma arma. Cansou de passar toda a noite se revirando pela cama, vítima da insônia e dos pensamentos incessantes. Sua alma, cada vez mais febril, estava a ponto de também contaminar o corpo, já que suas orelhas ardiam como que no fogo. A solução estava ao seu alcance, bastava querer.
E ela quis: jogou pra longe suas cobertas e sequer se deu ao trabalho de guardá-las. Colocou um CD de Chet Baker e preparou um café forte. "O dia parece nascer mais bonito e interessante quando mudamos um pouco a rotina", ela pensou. Quando abatida pela insônia, ela costumava ficar presa à cama, até que um resquício de sono chegasse, o que só acontecia quando a manhã já estava envelhecendo. Perdia horas importantes do dia, deixava coisas para trás. Hoje, não.
Embalada pela voz pequena e o trompete que saíam do CD player, Nádia arriscava passos de dança, tendo apenas a xícara de café como acompanhante. Ela fechava os olhos e sorria, como há muitos dias não conseguia. Por muitos minutos permaneceu assim, curtindo a si mesma. Sempre ouvira falar que, antes de gostar de alguém era necessário ter amor próprio antes de tudo. Pois agora se sentia pronta.
Partiu para a sala com a cabeça fervilhando de idéias. A ansiedade a impediu de ligar o computador. Sacou da gaveta um pequeno caderno e uma caneta e desandou a escrever: cartas para os pais e irmãos e para duas velhas amigas. Ainda no embalo, arriscou alguns sonetos e artigos para o jornal onde trabalhava. Sua letra caprichada preenchia as folhas e ajudava a esvaziar as idéias. Sentiu um grande alívio ao olhar para as linhas e gostar do que havia escrito. Por um momento, sentiu vontade de conversar com alguma pessoa divertida, que falasse abobrinhas e a fizesse rir. Desistiu, pois ainda eram três horas da manhã e àquela altura quem não estava dormindo com certeza estaria nas ruas curtindo. Colocou um CD da Billie Holiday e continuou seus passos com um dançarino imaginário. Quem passasse pela rua e visse uma única janela iluminada poderia imaginar qualquer coisa, menos que ali havia uma pessoa feliz. Ao menos por um dia.

postado por Fábio, 11:21 AM |