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Segunda-feira, Maio 31, 2004
Impaciência é meu sobrenome. Me falta paciência até para uma simples refeição. Antes da primeira garfada, já estou a pensar no que farei quando terminar de comer. Me vejo caminhando enquanto tomo meu café. A leitura, um dos meus prazeres, por vezes se torna um fardo, quando preciso pensar, quando preciso fazer, quando preciso agir.
As coisas não se encontram à mão, e isso incomoda. As canções grudam na mente, mas servem apenas de trilha sonora para os pensamentos recorrentes. As idéias, as mesmas. Os jornais vêm à minha mão para tentar conter um pouco da ânsia. Por vezes, ele aplaca, por outras, só alimenta. As procuras não cessam. Nenhuma delas.
Resta caminhar. E em cada passo é possível ouvir novos sons, novas imagens. Há um mundo à nossa volta, que às vezes não percebemos. Um sorriso escondido, um olhar dissimulado, uma garota esperando. Há uma dúvida, um obstáculo. Há vários, na verdade. Olhos assustados, distantes, embora o toque dos dedos nos aproxime.
Permanecerei impaciente, por hoje. Talvez não por muito tempo. Não há como saber, não ainda.
postado por Fábio, 12:55 PM |
Sexta-feira, Maio 21, 2004
Aninha corria de pés descalços no chão de terra. Corria atrás dos cães Neruda, Pessoa e Florbela, que faziam seus poemas de todos os dias: correr, latir e brincar. Pêlos brilhantes, olhos vivazes, eram a alegria da menina de olhos pequenos e sorriso grande. Corria pelos jardins, bosques, pelas hortas e pomares. Dava saltos, gritava, ria em voz alta, rodando pelo chão quando os três cachorros pulavam em cima dela. Aninha é só felicidade.
Ela permanece deitada, mesmo quando os cachorros se vão. Caneta e papel à mão, ela desenha paisagens ainda mais belas que as presentes ao seu redor. Ela sorri a cada traço, enquanto sente a lufada de ar fresco lhe invadindo os pulmões e o coração enlevado.
De repente, Aninha sente a luz forte em seus olhos fechados. É a energia elétrica, que retornou ao seu pequeno apartamento. O clarão a desperta dos pensamentos bucólicos. Não há mais bosques, não há mais desenhos, nem poemas. Os três cães voltam a ser o que sempre foram: um triste e solitário peixinho dourado, um gato gordo e preguiçoso e um ramster correndo indefinidamente num minúsculo globo de ferro. Aninha suspira: ao menos deram jeito no blecaute, mas preferia continuar no seu mundo de sonho. Estende os braços e é quase capaz de tocar as paredes, nos dois lados opostos, de tão pequena é a sala. Novos suspiros e a vontade de chorar. Não há mais vontade de ir ao telefone e conversar com os amigos. Os rapazes que a procuram são falsos ou desagradáveis. Não raro, as duas coisas. A TV é um caso perdido, o rádio também. Os CDs já a enjoaram. Hoje ela só quer correr, acompanhada de cães e pássaros livres.
Ela deseja rir, apenas isso. Ou ainda: quer encontrar motivos para rir. Hoje ela é mais uma pessoa que sonha acordada. Ela fecha os olhos novamente, mas dessa vez, só vem o torpor. A vista turva, as imagens rodando e o incômodo barulho produzido pelos seus animais em volume ensurdecedor. Aninha pensa em descer correndo os degraus que separam seu apartamento, no 15º andar, das ruas da cidade. Lá, ela não poderá correr impune. Mas até lá, estará cansada demais para pensar e sofrer.
postado por Fábio, 2:26 PM |
Terça-feira, Maio 18, 2004
Do outono
Abrir a janela logo cedo é um ritual que pode reservar algumas surpresas. Como quando você acorda ofuscado pela claridade que surge de fendas na janela mas, quando a abre, encontra o céu nublado. Por isso, talvez, quando afastamos a cortina e sentimos a luz do sol, junto com a brisa da manhã no nosso rosto, a sensação é um misto de júbilo e alívio.
Não há clima melhor que o das manhãs de outono. Céu limpo, sem uma nuvem sequer, tendo a companhia somente do velho astro, bola de fogo nos protegendo do vento frio. Nada de chuva, nada de mormaço nem de suor. Depois de uma noite fria, embrulhado em cobertores, a vontade de se levantar é quase zero. Mas quando levantamos... ah, que maravilha!
A primavera é bela apenas onde nascem flores. Por aqui, não as vemos com freqüência. Fora o excesso de chuvas, que também nos aflige no verão. O inverno é inclemente e a cena que me vem à cabeça são das pessoas sem teto e sem cobertor, tiritando nas ruas buscando o calor dos jornais, ou mesmo o humano. Por isso o outono.
Folhas amareladas não têm a mesma beleza em outras estações e em apenas uma época do ano é possível caminhar vagarosamente nas ruas sem se exasperar. Os beijos no outono não se tornam tão lascivos como no verão. Nem demasiado doces, como na primavera. Mas são os mais verdadeiros, porque exprimem sentimentos e anseios que cultivamos durante todo o ano, e não apenas por alguns meses. Também não são uma proteção térmica, como os do inverno.
As músicas ficam mais belas no outono. Os poemas, mais intensos. Viver o outono é viver dias melhores e também querer ser uma pessoa melhor.
postado por Fábio, 1:32 PM |
Terça-feira, Maio 11, 2004
Olho para os relógios, consulto minhas anotações, minha agenda. O tempo. O tempo é cada vez mais gasoso, ganha formas as mais variadas, o mesmo acontecendo com seu volume. Todo o tempo do mundo não me basta para fazer as coisas que eu quero, mesmo que elas sejam poucas. Mas um minuto pode ser muito para tarefas adicionais. A música de cinco minutos pode durar três hoje ou dez, amanhã. Todas as coisas costumam fugir ao controle, mas nenhuma com tamanha autonomia como o tempo, esse eterno escudeiro de Murphy. Talvez seja ele a equação dessa Lei, que já se comprovou matematicamente.
Aí está, possivelmente, a raiz do problema: a falta de matemática na vida, a eterna mania de prezar os pensamentos em detrimento do cálculo. As pessoas que calculam são mais exitosas. Saberei eu calcular? Taí uma boa pergunta, é algo para se pensar.
Pensar? Voltamos à estaca zero.
Calcular mais e pensar menos. Parece uma solução, mas é só mais um problema, pois penso demais. Besteira, na maioria das vezes, mas penso. Sou refém dos meus pensamentos, que vez ou outra me visitam com uma freqüência que chega a ser incômoda. Penso quando acordo, penso durante o café da manhã e enquanto almoço. Penso ao sair de casa, ao caminhar a esmo, ao amarrar os cadarços dos sapatos. E não penso nos cadarços, é bom que se diga.
O tempo passa, e continuo pensando. Tempo e pensamento. Gasosos, se espalham por todos os lados. No teclado, nos meus dedos já gastos de bater, nas minhas pernas cansadas, nas minhas costas doloridas. O tempo e o pensamento. Parecem que trabalham em sintonia. Um a lembrar a existência do outro, ou ainda agindo para que o outro exista. O pensamento vai martelando, como os relógios que fazem questão de avisar dos segundos já idos. Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac. Já não conto sequer os minutos. Os cálculos ficam para outra oportunidade.
postado por Fábio, 10:36 AM |
Segunda-feira, Maio 03, 2004
Minha vida daria um post
Papo no MSN:
Luciana diz:
Vc tem alguma crença???
Vida besta... diz:
Eu acredito em Deus, mas acho que ele não tem acreditado em mim (risos)
Luciana diz:
Acredita sim e aproveite que está em alta com ele e pede por mim...rs...
Vida besta... diz:
Não, justo o contrário. Acho que ele está de mal comigo...
Luciana diz:
Tá nada. Ele sabe que vc está bem... daí se preocupa com os menos desfavorecidos.
Uia!
postado por Fábio, 11:27 AM |
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