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Layout by Luciana C.
Sábado, Março 27, 2004

Criança

A criança que corria
Olhando sorridente pro céu
Já não corre mais
Banhada de sol e terra
Embalada pelas canções de sempre
E pelo ar da serra
A criança girava o corpo
Esticava os braços miúdos
E sentia a vida fluir
Hoje, o passado que queremos
Se tornou uma foto velha
Um saudoso acorde musical
E uma imagem forte

Um vulto, correndo desabalado
Entre um corredor de árvores
Galhos e amor
Relva verde e alegria
Brincadeiras de uma estação
Que volta, mas não traz
As mesmas flores e frutos que criou

postado por Fábio, 3:31 PM |

Terça-feira, Março 23, 2004

Hoje abri o caderno procurando anotações e não gostei do que vi. Um rascunho de carta endereçado a ela. Desagradável essa lembrança, justo hoje que meu dia estava tão bom. Um sono agradável e completo, papo gostoso com o pessoal de casa, uma animada partida de futebol e um filme sensacional no DVD. Tudo ia bem demais. Pra fechar com chave de ouro, um passeio com a Lúcia. Olhos lindos, penetrantes, cor de mel. Olhos interessados, principalmente. Não havia dúvida.
Tudo combinado, perfeito. Bastava a mim procurar o número do celular dela no caderno e... pronto, lá se foi meu dia!
Não importa o que aconteça daqui pra frente: o fantasma da Virgínia vai me perseguir. Tudo o que eu fizer hoje será pensando nela: um beijo, um abraço, um afabo. Talvez até mesmo seu nome escape da minha boca. Virgínia.
Tenho feito minha parte para me esquecer dela, mas já vi que será mais difícil que o imaginado. Não bastou jogar fora todas as cartas e bilhetes, apagar todos os e-mail. Tampouco vender, trocar ou dar os CDs, livros e camisetas que ela me deu. Os indícios de que um dia ela fez parte da minha vida continuam por aí, indeléveis.
E lá estava o nome dela, dançando na folha semi branca, zombando de mim, como se ela própria estivesse escrito. Para me aporrinhar. Virgínia, Virgínia, Virgínia.
Arranquei a folha do caderno e rasguei em mil pedaços. Virgínia, pensei em comê-las, mas isso só me faria ter mais um pouco dela dentro de mim. Virgínia. Peguei o isqueiro e queimei. Todos os pedaços. Virgínia, por quê? Por que fez isso comigo?
Agora não há mais como. Não consigo sequer pensar. Só o que faço é lembrar, lembrar. Músicas, beijos, sussurros, Virgínia. Tento pensar nos olhos de Lúcia, nos belos olhos de Lúcia, mas não dá certo.
Vou ao telefone. Disco alguns números, ansioso. Só penso em não trocar os nomes, mas sei que vai ser difícil. Virgínia...

postado por Fábio, 9:58 PM |

Quarta-feira, Março 17, 2004

Essas linhas aqui são mais umas que fiz entre 1996 e 1998 - vocês já sabem onde, né? - e achei curioso elas falarem de reminiscências, sendo que o próprio fato de eu as desenterrar já é uma forma de recuperar o que já passou.
É um pretérito-mais-que-perfeito (também conhecido como "o passado do passado")


Reminiscências

Os cactos secam seus espinhos
E as rosas choram
Ao ver suas pétalas murchas
Um dia, dois dias, seis meses
As saudades dos tempos fraternais
Que se perderam entre as ruas desertas
Entre as noites vazias e negras
E sentado entre palavras dormentes
Destruo os poucos sorrisos
E me concentro na dor antiga
Que me espera ao lado

Enxugo o orvalho do meu rosto
E engulo a angústia em sons
A vida, a noite, a sorte
Descastelam-se um a um
Enquanto as horas caminham
A dor, a treva, a morte
"Onde vamos agora, Destino?
Vá na frente, que eu já vou
Te seguindo em passos pesados
Esperando as pernas cederem"

postado por Fábio, 7:26 PM |

Quarta-feira, Março 10, 2004

Minha vida daria um post

Dia desses conversava com uma amiga e começamos a falar de relacionamentos amorosos, namoros, rolos, coisas assim. A certa altura, ela me falou que amava seu namorado, mas que sentia faltar alguma coisa, algo relacionado a romantismo, talvez. Eu disse a ela que, se eles realmente se gostavam, talvez não houvesse algo errado com o relacionamento, e sim com o mundo. E falei que as pessoas ficam esperando demais por amores infinitos, relacionamentos superardentes, festas de arromba e coisas hiperbólicas. Provavelmente porque assistem muita televisão.
Eu já tive minha fase de grandes expectativas, claro. Hoje, persigo coisas menores. Não se trata de acomodação. Apenas descobri que posso ser muito feliz acumulando pequenas alegrias, em grande quantidade, em vez de perseguir A Grande Meta, que eu nem sei qual é, que pode nem existir e que, caso exista, pode ser inviável pra mim.
O interessante é que essas pequenas coisas se mostram não ser tão pequenas com o passar do tempo. Você sai com amigos e, alguns dias depois, já sente falta deles e vê o quanto aquele encontro foi bom. Após um show, você ainda sente reverberar as músicas na mente. Uma dança breve pode ficar meses na lembrança. Serão mesmo pequenas coisas?
E a receita é tão simples... amigos de verdade, programas interessantes, música, filmes singelos, fuga da rotina. Desde que voltei das férias, praticamente todos os meus finais de semana têm sido agitados, intensos e... felizes. Nada "televisivo", mas com seus bons momentos. Os dias da semana são corridos, por causa do trabalho, mas nem por isso me furto a viver. Entre um texto e outro, telefonemas, papos legais, programas agendados, música, filmes... Vou remando a vida e, quando o vento é favorável, deixo que a vida me leve, mas sem nunca me descuidar totalmente do leme.

postado por Fábio, 6:18 PM |

Segunda-feira, Março 08, 2004

Tinha 30 anos e não se lembrava qual a última vez que pisou num parque de diversões. Não tinha sobrinhos, nem irmãos pequenos para levar a esses lugares. Também não fazia questão de ir por conta própria: alguns brinquedos eram infantis demais. Outros eram muito frenéticos, por isso não gostava de praticamente nada. Talvez fosse a falta de costume. Ou então estava ficando chato com o passar do tempo.
Arthur queimava os neurônios, mas não conseguia se lembrar da última vez em que foi a um parque. Camila pegou em sua mão e o puxou com força rumo a um dos brinquedos, interrompendo seus pensamentos. Foi praticamente arrastado pela namorada, como donos de cachorros grandes, nos desenhos animados. A cena chamou a atenção dos freqüentadores do parque, especialmente as crianças, que riram gostosamente da cena. Aquilo bastou para deixar Arthur ainda mais acanhado: "Puta merda, onde fui amarrar meu burro?", pensou. A idéia logo se desvaneceu com o beijo suave de Camila. Só ela mesmo para convencê-lo a ir num parque de diversões. Preferia um cinema, um bar, ou mesmo um filminho em casa.
Camila o arrastou por todo o parque, mas Arthur só aceitava parar nas barraquinhas de tiro. Tinha boa pontaria e poderia dar alguns mimos para ela, o que acabou acontecendo.
Camila estava surpreendentemente eufórica e exibia um sorriso largo, como Arthur nunca havia visto. Um sorriso de pura e sincera felicidade. Como estava linda! Se sentiu feliz por vê-la assim e acabou por se aproximar do carrossel, rebocado por ela. Só se deu conta do que acontecia quando se viu na fila para entrar no brinquedo. Para piorar, os únicos adultos que rodavam no carrossel eram os que levavam crianças pequenas no colo.

- Eu não vou, não...
- Por que, amor?
- Porque não, oras. Olha só isso - apontou para o carrossel.
- Tô olhando e não vejo nada de mais. Deixa de frescura!

Mais uma vez, Camila puxou o namorado, no melhor estilo desenho animado, e praticamente o jogou no cavalo baio. Arthur chegou à conclusão de nunca ter passado por tamanha vergonha. Pensou em esconder o rosto, mas isso apenas tornaria a cena mais ridícula para ele. Ela percebeu seu acanhamento e, antes de subir no seu próprio cavalo, segurou em sua mão e disse:

- Sabe de uma coisa, amor? Cansei de ser adulta. Descobri que felicidade é coisa de criança. E hoje estou feliz, ainda mais porque você está comigo!

Camila subiu no cavalo branco, em frente ao de Arthur. Os cavalos ficavam próximos o suficiente para que ambos pudessem esticar os braços e se tocarem. Ficaram com de mãos dadas durante todo o passeio. Quando o carrossel começou a rodar, sentiu um torpor. Não era mais o receio, nem a vergonha. Ficou uns segundos pensando que sensação seria aquela, até que sentiu a mão de Camila segurando a sua com mais força. Olhos nos olhos, e ele descobriu afinal do que se tratava. Pôde perceber que ela pensava a mesma coisa. E durante os minutos que permaneceu no carrossel, não se importou mais com os outros freqüentadores do parque. Até mesmo porque, afinal, não conseguia ver mais nenhum deles.

postado por Fábio, 3:03 PM |

Quinta-feira, Março 04, 2004

Passos

Dá-me um dia de luz
Dá-me um caminho de ventos
Uma estrada de tijolos vermelhos
Para trilhar com os passos leves
Que podem me seguir sem censurar

A moça que me olha é a mesma
Que me diz como penso
Penso como nos dias
Em que caminhava sozinho
Hoje um dia de luz tem sombra
Um instante de vento é moinho
Num por de sol com olhos vermelhos

postado por Fábio, 9:07 PM |

Terça-feira, Março 02, 2004

Meninas beges - VIII




Juliette Binoche

postado por Fábio, 4:32 PM |