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Quinta-feira, Janeiro 29, 2004
Tenho palavras de sobra
Pra lançar ao vento
Só me faltam as respostas
Da voz que me dá alento
Tenho vontade de sobra
Pra escrever, para falar
Me falta apenas a lufada, o vento
Perdidos em cada suspirar
Tenho certezas de sobra
Em cada caminho, em cada vão
Só me falta a que mais me importa:
"Todas as palavras são em vão?"
postado por Fábio, 12:06 PM |
Terça-feira, Janeiro 27, 2004
Meninas Beges - V
Fernanda Takai
A mais bege de todas!
Cérebro de Ervilha
O Sol nasceu pra todos. A sombra, pra quem tem ingresso VIP.
postado por Fábio, 9:02 PM |
Quinta-feira, Janeiro 22, 2004
Sonhos
A gente sonha menos quando fecha os olhos e dorme. O pior é que demoramos a perceber isso. Demoramos a perceber quando é hora de abandonarmos um sonho e só retomá-lo quando estivermos de olhos fechados. Talvez aí esteja nosso grande problema: os sonhos insistem em abandonar o nosso sono e passear por aí, mesmo sem licença.
Nossa gana de sonhar é grande. Essa é nossa glória, mas também nossa ruína. Sonhamos no trabalho, sonhamos em casa. Sonhamos também no campo de futebol, acenando para uma torcida inexistente após marcar um gol, ou empunhando uma guitarra imaginária ao ouvir uma canção especial. O sonho nos é tão vital quanto respirar, e muito mais que comer ou beber. Afinal, quanto tempo você conseguiria viver sem sonhar?
Sonhar implica em soltar amarras e liberar sentimentos, chutar o balde. Ou então abdicar da segurança, abandonar entes queridos. Poucos o fazem, pois sabem que o preço a cobrar é alto. E se você abre mão do seu escudo, sempre haverá alguém pronto a jogar sua lança sobre o seu peito. Não raro, alguém que se mostrava tão ou mais frágil que você. Mas um peito aberto é sempre um peito aberto. É um alvo obrigatório.
Sonhar nos faz falta, apesar de tudo. Eles são necessários para dar um pouco de vida aos nossos dias. Para que ela seja mais que uma seqüência de funções biológicas seguidas de obrigações e atos mecânicos.
Hoje, quero fechar os olhos, dormir e ter muitos sonhos. Mas também acordar e, em seguida, poder realizá-los.
postado por Fábio, 11:21 AM |
Segunda-feira, Janeiro 19, 2004
Ela abriu a porta do apartamento e se jogou imediatamente sobre o sofá, apertando com força as almofadas brancas. Havia segurado o quanto pôde as lágrimas, que ameaçavam brotar desde que presenciou aquela cena, cerca de uma hora antes. Agora que estava sozinha, podia chorar e soluçar o quanto pudesse.
Em pouco tempo, as almofadas já estavam encharcadas, e ela se perguntava se tudo era mesmo verdade. Aquilo a fez perder definitivamente a fé nos homens. Chegou à mesma conclusão de suas amigas: nenhum deles presta, são realmente todos iguais. E se sentiu a mais tola das mulheres por ter acreditado em palavras vazias e ter sido seduzida por versos. Pelos versos de Alex.
Alex Hidalgo era elegante, mas ela nunca se interessou por homens assim. "Elegância pra mim é artificialidade", costumava dizer. Também não era muito bonito. Mas sua forma de falar a conquistou. A entonação, os temas, as metáforas surgidas a cada frase, como se ele não estivesse conversando, mas escrevendo seu próximo livro de poesias. Ele era um rio de idéias, transbordando lirismo a todo instante. Duas noites de papo bastaram para que ela se entregasse a ele, de corpo e alma. E que se apaixonasse pelo famoso poeta.
Se sentiu em um conto de fadas, andava de mãos dadas pela cidade, toda feliz. Estava com uma pessoa romântica, sensível e inteligente, alguém amado pelas mulheres e invejado pelos homens. Se orgulhava em abrir o mais recente livro do seu amado e se enxergar como a musa em cada verso, em cada estrofe, um poema mais lindo que outro. Todos feitos para ela. Vivia um sonho tão lindo que tinha medo de um dia acordar.
E esse temido dia chegou. Flagrou Alex na praia, aos beijos com outra moça, vários anos mais nova que ela. Sentiu as pernas tremerem, o ar se tornou rarefeito e a visão turva. Não encontrou forças para tirar satisfações com ele e voltou correndo para casa, se sentindo sufocada. Queria ficar sozinha, chorar, gritar, se desesperar. Foi um milagre não ter batido o carro pelo caminho, pois mal percebia o carregado trânsito ao seu redor, tampouco o mudar de cores no semáforo. Partiu para casa como um camicase. Chegou em casa e, enquanto se punha a chorar, ficava imaginando porque as pessoas são falsas e mentirosas. Haveria de rasgar e jogar fora muitos livros. Contos, poemas, peças teatrais e romances. Descobrira, da pior forma possível, que a maldade se esconde em todas as formas de beleza.
postado por Fábio, 12:36 PM |
Sexta-feira, Janeiro 16, 2004
Meninas Beges - IV
Shantha Roberts (a cover star do novo disco do B&S)
Cérebro de Ervilha
Você sabe que é um bobo de carteirinha quando passa um dia inteiro de bem com a vida por causa da felicidade de outros
postado por Fábio, 3:31 PM |
Quarta-feira, Janeiro 14, 2004
Camila procurava algo pra fazer. Tinha de ficar o dia inteiro no escritório, mas não surgia nenhuma tarefa. Seria um dia de ócio e tédio total. Fim de ano, poucos clientes aparecem, estão todos curtindo o calor em alguma praia do Nordeste ou mergulhando nas lagoas de Bonito. Todos os trabalhos da semana já foram concluídos. Terá um dia parado.
Ela lamenta não ter levado nenhum livro ao trabalho. Seria bom perder alguns momentos imersa na leitura, mergulhando em um mundo que não o seu. Ela quer apenas fugir do seu mundinho. Vai para as salas adjacentes, visita outros departamentos, faz perguntas genéricas e recebe respostas idem. Some rapidamente e suscita comentários os mais diversos. Nunca a tinham visto fora de sua sala, a não ser quando saía para o almoço ou quando ia embora para casa. Um mais cínico arrematou:
- Eu até pensava que ela não conseguia andar. Só a vejo sentada...
Mas hoje Camila não quer ficar sentada. Pelo menos não na frente do computador. Passou quatro dias olhando pra ele, o dia inteiro, sem parar. Ela também não quer mexer na Internet, não hoje. Quer fugir da tentação de abrir sua caixa de e-mail e encontrá-la vazia. Foi o que aconteceu no dia anterior: abriu a mesma 15 vezes e em nenhuma delas encontrou o que esperava. Só recebera mensagens com piadas batidas e spams anunciando produtos miraculosos. Hoje, seria igual, com certeza. Resolveu não acessar a rede. Também quis fugir do ICQ, pois sabe que não encontrará ninguém. Ficaria com seu nome vagando na tela, solitário, à espera de alguém para conversar, alguém que não virá.
O telefone está ao lado, mas Camila não pode usá-lo. Suas ligações são constantemente vigiadas pela chefia: corte total de gastos. "Antes os telefonemas. Podiam ser os funcionários", se conformou. Quis pedir a alguém que ligasse pra ela. Pensou, pensou mas não se lembrou de ninguém com quem pudesse contar. Talvez porque não houvesse.
Discou o número do ex-namorado, pediria a ele que ligasse pra ela. Uma mulher com voz sensual atendeu ao telefone. Camila disse que era engano e desligou.
Passou mais uma hora, pensando no que fazer. Resolveu acessar a internet. Jornais. Só notícias ruins. Mortes, enchentes, guerras. Futebol? Odiava esportes. Não dava mesmo pra ler os jornais. Não resistiu: entrou no seu provedor de e-mail, digitou nome e senha. E ficou aguardando a resposta, que demorava a aparecer. A janela não carregava, como de propósito, para dar algum suspense a um dia totalmente sem graça.
Breve comentário
Esse pequeno conto acima eu fiz no final do ano passado. Foi dentro do ônibus, no caminho do trabalho pra casa. Complicadíssimo escrever no ônibus, mas o maluco mesmo foi que, enquanto eu escrevia, já com a história pronta na cabeça, o celular da moça que estava sentada ao lado tocou. Ela atendeu:
- Alô? Camila?
Eu, hein?
postado por Fábio, 12:41 PM |
Segunda-feira, Janeiro 12, 2004
Em dezembro tive a sorte de estar com um caderno e caneta no exato momento em que me veio alguma idéia para postar aqui. Fiz vários textos, uns grandes, outros menores. Três deles já foram postados aqui e devo ter outros quatro ou cinco desta fornada. Mas resolvi dar um tempo neles para falar da escrita de outros.
Porque os textos de outras pessoas nos comovem tanto? As pessoas falam de sonhos, de dúvidas, de angústias mil, e nos prendem como se estivéssemos no cinema, assistindo à seqüência de um filme querido, há muito tempo esperado. Nos emocionamos, rimos, às vezes até choramos. Tudo por causa de histórias e sentimentos passados por outras pessoas. Sim, poderiam ser nossas histórias, mas será apenas por isso que nos tocam?
Todos nós temos nossos próprias questões para tratar, nossos próprios problemas. Temos assuntos suficientes para ocupar o pensamento em tempo integral mas, mesmo assim, encontramos lacunas para nos ocuparmos com esses escritos. Talvez esse seja um dos motivos que levam as pessoas a visitar blóguis contendo confissões, desabafos ou algo parecido (fora a curiosidade pura e simples, lógico).
Mas e quando nos bate aquela vontade de conversar, servir de confidente, de saber o que motivou aquele texto triste? E a vontade de perguntar se está tudo bem e se podemos ajudar em alguma coisa? E o ímpeto de ligar e passar horas a fio conversando com a pessoa, apenas para ocupá-la com outras coisas, para deixá-la mais animada, feliz? Quem há de explicar?
Existem pessoas com magnetismo especial. Umas por causa de seu bom papo, de um rosto ou um corpo bonito. Existem outras que nos atraem mesmo pela pureza da alma. Mas o que dizer de alguém que chama atenção apenas pelo que escreve? E não, não falo de escrever bem. Falo de escrever coisas que nos inspiram essa coisa estranha. Essa coisa que podem chamar de solidariedade, de compaixão mas, que no fundo, não tem nome.
Sim, existem pessoas que, por mais que estejam acompanhadas, se sentem desprezadas, solitárias. E mais incrível: nos incute uma vontade inusitada de lhes fazer companhia.
postado por Fábio, 11:41 AM |
Quarta-feira, Janeiro 07, 2004
Eu quero
Quero ter dias de Sol, dias de céu azul. Dias em que mesmo as gotas de chuva venham claras e quentes, que me aqueçam enquanto me molham. E então abrirei os braços para poder receber mais chuva.
Quero dançar discretamente, mesmo enquanto ando. Vontade incontida de pular, disfarçada nos passos mais longos, passos que não precisariam ser dados. E todos haverão de ver que, mesmo disfarçando, eu pulo, como quem quer levitar.
Quero ter ganas de me dirigir a todos com um sorriso, desde a bela criança até o funcionário que me atende de mau humor. Olhar para o vidro embaçado de chuva e poder riscar um nome com os dedos. E fechar os olhos após escrever.
Quero ter vontade de cantar, cantarolar, assoviar. Poder ter belas canções na mente bons motivos pra me lembrar delas. Quero, enfim, viver. E não simplesmente existir, respirar. Quero também suspirar.
postado por Fábio, 8:26 PM |
Segunda-feira, Janeiro 05, 2004
"É gostoso sentir esse arrepio", pensou Lúcio, enquanto lia a carta que recebera de Luana. Colocou no aparelho de som o seu disco preferido, que o enternecia a cada canção. Mas ele sentia, ao ler aquelas letras redondas e caprichadas, uma emoção mil vezes maior.
Passara semanas trocando e-mail com a namorada, desde que ela viajara para Londres, a trabalho. Recebia também fotos de pontos turísticos e locais interessantes da cidade, ela sempre sorridente, como quando se conheceram. Mas agora era uma carta, com o perfume dela, com flores desenhadas e um "Te amo" tremido, destoando das demais palavras, tão bem escritas.
Lúcio se achou, naquele momento, o mais feliz dos homens. Sempre passou por relacionamentos atribulados e por longos períodos de solidão, onde supria a falta de amor com noitadas e parceiras fugazes. Isso sem falar em quantas vezes recuou, recusando-se a se envolver com alguma bela moça que lhe oferecia atenções especiais. Agora não: encontrara a mulher que era mais que uma companheira: era a razão de seus dias.
Sinto falta de te ver, Lúcio. De sentir seu cheiro, teu abraço. Estamos longe um do outro há apenas dois meses, mas é como se fosse um ano.
Ele lê e relê a carta. Aperta o Repeat do aparelho de som e volta a ouvir seu disco. Quer sentir novamente aquela combinação especial de sensações, que lhe é tão cara. Luana volta em dez dias, mas até lá, ele continuará acariciando aquela folha de papel, contando os segundos que faltam para vê-la novamente. E quando chegar o dia, irá ao aeroporto. Quando ela surgir, lhe dará um abraço forte, levantando-a, enquanto rodopia, como se estivesse uma pequena criança nos braços. Sem querer, vai chamar a atenção das pessoas ao redor, que vão se lembrar de seus grandes encontros, e também irão se emocionar.
Cérebro de Ervilha
Ao escrever, todos são belos e bons...
postado por Fábio, 11:56 AM |
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