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Sexta-feira, Dezembro 26, 2003
Vou deixar a vida me levar
Pra onde ela quiser
Estou no meu lugar
Você já sabe onde é
É, não conte o tempo por nós dois
Pois, a qualquer hora posso estar de volta
Depois que a noite terminar
Ele abriu a janela e deixou, depois de muita relutância, o sol invadir o quarto. A luz entrou, acompanhada de uma leve e reconfortante brisa. Ele deu um berro animado, abriu os braços e girou o corpo, como sempre fazia quando estava sozinho e queria extravasar. Estava muito contente, afinal de contas.
Até poucos minutos, ouvia músicas no escuro, em seu quarto fechado como uma cela solitária. Tivera pensamentos tristes e pensara nas dificuldades encontradas pelo caminho. Agora, decidiu deixar tudo pra trás, pelo menos naquele instante. Faltavam poucos minutos para as nove horas da manhã do dia 26, mas ele sabia que o ano terminara naquele momento.
Vou deixar a vida me levar
Pra onde ela quiser
Seguir a direção
De uma estrela qualquer
É, não quero hora pra voltar, não
Conheço bem a solidão, me solta
E deixa a sorte me buscar
Não faltaram naquele ano momentos difíceis, de choro, de angústia. Mesmo de uma leve melancolia. Mas hoje ele não quer pensar nessas coisas. Lembranças tristes entraram na sua mente sem pedir licença, mas ele as enxotou sem dó nem piedade. Partirá pruma viagem, onde um céu lindo, ares limpos e pessoas bacanas o esperavam. E a música, claro. Que nunca pode faltar.
Eu já estou na sua estrada
Sozinho não enxergo nada
Mas vou ficar aqui
Até que o dia amanheça
Vou me esquecer de mim
E você, se puder, não me esqueça
Vai partir pensando nas pessoas que deixou, mas que verá logo mais. Amigos, familiares, colegas, companheiros. Quando voltar, quer abraçar a todos, dizer que está muito feliz por poder vê-los. Vai contar histórias sensacionais e mostrará belas fotos. E essas pessoas ficarão felizes por ele estar feliz.
Vou deixar o coração bater
Na madrugada sem fim
Deixar o sol te ver
Ajoelhada por mim, sim
Não tenho hora pra voltar, não
Eu agradeço tanto a sua escolta
Mas deixa a noite terminar
E ele voltará ao trabalho revigorado. Voltará para o mundo do estresse, mas sabendo que estará mais forte que nunca. Por tudo o que de bom e de ruim aconteceu, sabe que esse foi o ano mais importante da sua vida. Ele passou por tudo e seguirá em frente. Consciente que pode tudo, que os obstáculos podem atrasá-los, mas jamais o poderão parar.
postado por Fábio, 10:48 AM |
Sexta-feira, Dezembro 19, 2003
Amanhã viro vagabundo!
Hoje, encerrei minhas atividades profissionais de 2003. Isso significa ócio, futebol, descanso e um tempo longe da Internet. Claro que o viciado aqui baterá cartão nos ciber da vida. Mas infelizmente serei menos presente, até dia 5, quando volto ao batente.
Mas prometo atualizar essa bodega ao menos duas vezes por semana.
Bom lembrar que eu havia feito esboços para umas três postagens, mas não foi possível colocar aqui, por isso, o farei aos poucos. Podem vir aqui, que teremos textos!
Enquanto isso, resolvi republicar um continho antigo. Até mais. Se eu não os ver (?) até 2004, um bom Natal e um ótimo ano novo!
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Cláudio lia vorazmente. Um livro da faculdade. Era pesado, difícil, toda atenção é necessária. Compenetrado, ele passa pelas folhas, apreendendo as palavras e buscando um sentido para elas. A concentração o leva a Galápagos, à Pangéia, à origem das espécies.
- Estação Tatuapé - É o condutor do trem, anunciando aos passageiros a próxima estação.
Cláudio não ouve, concentrado que está na leitura. Interrompe a leitura, para ver onde está. Por cima dos óculos, vê as pessoas na plataforma, esperando o trem. Detém seus olhos nelas. E encontra uma visão familiar. Marisa.
Ela está com mochila e jaqueta, provavelmente vindo do cursinho. Os cabelos, loiros como sempre, estão curtos. Nunca pôde imaginar o quanto ficaria linda com aquele corte. Fica ansioso, aperta as mãos. Quer e precisa falar com ela. Marisa, porém, entra em outro vagão.
Se levanta, para encontrá-la mas não é rápido o bastante. O comboio fecha suas portas e parte. O jeito é esperar até a próxima estação.
Há dois meses que não a vê. Desde a última conversa entre os dois, que terminou numa discussão tão violenta quanto desnecessária. "Mais um mal entendido", diz, ciente da burrada que fez. Mas admitir não fará as coisas mudarem. O jeito é falar com ela, pedir desculpas, tentar acertar os ponteiros. Dois meses. Porque não a procurou antes? E porque ela não o fez? Será que Marisa estaria tão chateada a ponto de não o procurar? Estaria indecisa, confusa como ele?
Talvez espere a iniciativa dele. Mulheres sempre esperam nossa ligação, elas nunca ligam. Preferem se queixar de um possível abandono a darem o primeiro passo. Uma montanha de idéias e suposições voam pela cabeça de Cláudio. Diálogos são lembrados, outros são imaginados. "Como tudo começou?" Pergunta ele. Não se lembra bem. Só sabe como tudo terminou: ambos saindo do cinema, ele bufando, ela chorando, cada um para um lado. E dois meses sem se falar. Onde já se viu tanto tempo longe um do outro, com tantas arestas para aparar? E pior: onde já se viu começar uma briga no cinema?
O livro, como era de se esperar, já foi relegado a segundo plano. Ele agora só pensa em Marisa, na briga, nos seus olhos, nos seus cabelos. "Como pude dizer aquilo tudo, fazer aquelas acusações?", pensa. A insegurança sempre foi seu maior defeito. Tentava ser uma pessoa melhor, mais confiante, mas não conseguia.
- Estação Corinthians-Itaquera
É agora. Marisa deve descer para pegar um ônibus. Cláudio desceria na próxima estação, mas precisa falar com ela, se desculpar, tentar explicar tudo. Ela sai do vagão e desce, célere, pela escada rolante. Ele fica petrificado. "E se ela me repelir?". Os pensamentos o confundem. As portas se fecham e o trem parte. Ele prossegue sua viagem.
postado por Fábio, 9:14 PM |
Terça-feira, Dezembro 16, 2003
As pessoas sempre dizem: "Bom era naquele tempo!". Motivos nunca faltam para dizê-lo. Claro, o passado é sempre melhor para todos, não importa o quão ruim ele tenha sido. Por um lado, é algo positivo, pois é sinal que guardamos na memória as coisas boas que passaram. Por outro, é sinal de desesperança, de pessimismo.
Tenho ganas de dizer que meus anos idos eram melhores, mas naquela época eu já sentia saudades dos anos anteriores e por aí vai. E tenho certeza que, daqui a cinco anos, vou me lembrar de todas as coisas e pessoas boas que conheci/conquistei/descobri. E vou dizer: "Queria voltar naquele tempo"...
Tudo isso para dizer que tento descobrir, enfim, qual foi minha melhor fase. E, por mais que resistisse a chegar a essa conclusão, não houve jeito. Até o momento, curti mais foi minha infância, mesmo.
Eram tempos em que minhas maiores dúvidas eram sobre quem teria sido o primeiro homem a pisar na Lua ou se Cabral aportou ao Brasil por acaso ou intencionalmente. Sim, porque eu já sabia todas as capitais do Brasil. Dos países da América do Sul, idem. Meu desafio era, então, os da América Central. Da Europa, conhecia bastante. E naquele tempo haviam menos países no Velho Mundo para decorar. Hoje tenho perguntas, que não são respondidas, e que talvez nunca o sejam. Nunca sei quando as pessoas são sinceras, se guardam os segredos que lhe confio. Nunca sei se aquela indireta é pra mim. Tampouco sei o que será da minha vida ou se atendo às expectativas de outrem.
Desde que me entendo por gente, as pessoas se escondem. Mas antes era fácil encontrá-las. Era olhar atrás de um arbusto, penduradas em uma árvore ou em cima do telhado. Daí, era só correr até o pique, contar um dois três e continuar a brincadeira. Hoje, todos se escondem em si mesmo. E eu nunca as encontro. Talvez nunca as encontre. E com o passar do tempo essas pessoas se tornarão um rosto apenas, como qualquer outro que encontro em uma rua movimentada na cidade, na foto de um obituário ou nos cartazes de procurados nas estações de metrô.
postado por Fábio, 10:32 AM |
Quinta-feira, Dezembro 11, 2003
Menino
O menino deixou seu boné cair, mas sequer deu conta disso. Continuou andando, pensando na vida (tão jovem, e já pensava na vida) e chutando pedrinhas que insistiam em cruzar seu caminho. Seguia para a escola, sem material, pois era sábado.
Os portões abertos o receberam. A quadra poliesportiva e o playground já estavam cheio de crianças, a maioria da mesma idade que ele. O menino, porém, relutava em brincar. Ainda sentia medo.
Ainda tinha fresco na mente o dia em que foi brincar com os meninos e meninas da rua pela primeira vez. Bastava se juntar ao grupo para ser ludibriado. No esconde-esconde, no pega-pega, nas partidas de futebol, havia sempre alguém para enganá-lo. Chegara a vez de freqüentar a escola, e a história se repetira. Na hora do recreio, era sempre o bobinho. Tomava a bola, mas sempre davam um jeito de ele voltar ao centro da roda, para levar olés de todos os meninos. E assim foi.
Hoje, o menino caminha sozinho, pois tem medo de brincar. Não quer mais ser passado pra trás e não sente vontade de fazer o que os outros faziam com ele.
As crianças brincam, riem, gritam, correm. Mas o menino apenas observa, triste, com o rosto colado ao alambrado, suspirando em vão. E imaginando se encontrará alguém com quem possa dividir jogos e brinquedos, sem medo de ser feliz. Antes que o tempo passe e a época de brincar se transforme em um passado em branco.
postado por Fábio, 8:53 PM |
Terça-feira, Dezembro 09, 2003
Todos os anos, encho a minha agenda com anotações, as mais diversas. Compromissos, compromissos. Pessoas a visitar, contas a pagar, lugares para visitar. Shows, cinemas, encontros e telefonemas. Nunca faltam planos - e tarefas - para o futuro.
Agora, com o ano se acabando, encaro a velha agenda de um modo diferente. O que antes era uma ponte para o futuro, funciona agora como um túnel para o passado. Quantos compromissos adiados, quantas metas repetidas. Coisas a fazer em abril, que precisam ser realizadas novamente em agosto ou novembro. Depois de 12 meses, tenho nas mãos uma ligeira retrospectiva do ano que está pra se acabar.
É possível perceber quantas coisas deixamos pra trás, num período de tempo tão curto. Quantos planos são mudados, quantas expectativas colhemos. E quantas dão frutos.
Tive um 2003 de reviravoltas. Muita coisa me aconteceu de repente, com ainda mais intensidade que no ano passado. Foi um período importante: de afirmação, de certezas. Mas passei também por instantes de dúvidas, de insegurança. Vivi, em todos esses dias, os dois lados de uma moeda que não parou de girar.
Ano que vem terei mais certezas, mais dúvidas. Mais dias para viver.
E, claro, mais uma agenda!
postado por Fábio, 11:49 AM |
Sexta-feira, Dezembro 05, 2003
Diálogos de esquina
- Tenho pensado muito em você, Ana.
- Hein?
- Tenho pensado muito, muito em você. Todos os dias, o dia inteiro.
- Mas por qual razão?
- Você já deve imaginar.
- ...
- E então, Ana?
- Então o quê?
- Não vai me dizer nada?
- Esperava que você me dissesse mais alguma coisa.
- O que eu já disse não basta?
- Você acha isso muito? Pois eu não. Isso pra mim não me basta.
- Não sabe o que me custou dizer isso...
- Olha, queria que soubesse de uma coisa, Carlos: você não é o primeiro a vir me dizer hoje que tem pensado em mim.
- E imagino que não seja o último. Mas eu falo de coração.
- E os outros?
- As pessoas mentem. Eu sei disso.
- E você, não mente? Ou vai me dizer que é mais virtuoso que os outros?
- Não, não sou mais virtuoso. Mas sou tímido demais. Não me desgastaria para vir aqui e te dizer algo que não fosse verdade
- Sinto muito, mas continuo sem saber o que dizer a você, Carlos.
- Então não diga nada. Só faça o que eu quero que faça.
- Também não sei se devo.
- Dê-me uma chance.
- Outros já a pediram. E me decepcionaram.
- Não o farei. Prometo
- ...
- Me dê a sua mão.
- ...
- Não, Carlos. Eu acredito em você, sei que fala a verdade, mas eu preciso de algumas mentiras.
- Hã?
- Eu preciso de mentiras, Carlos! Será que você não entende?
- Mas eu...
- Não importa se uma história é verdade ou mentira. O que importa é quem a conta.
E partiu, deixando para trás mais uma verdade, apenas uma entre tantas outras que conheceu. Por ora, ela ainda prefere a ilusão.
postado por Fábio, 2:47 PM |
Quinta-feira, Dezembro 04, 2003
Meninas beges - III
Renée Zellweger
postado por Fábio, 6:59 PM |
Quarta-feira, Dezembro 03, 2003
Minha vida daria um post
Eu acho que certas pessoas deveriam ter um pouco de bom senso e não ouvir determinadas músicas quando estão em um determinado senso de espírito. Partindo deste princípio, cheguei à conclusão que não tenho mais moral nenhuma pra dar bronca na minha mãe, quando ela colocar aquele CD que ganhou do meu pai, só pra ficar chorando. E nem assim, aliás, se pôde evitar.
Por outro lado, temos as coisas perenes e as intermitentes. Fiquemos aqui, então, com esse sentimento, que é passageiro. Quem sabe os versos não nos ajudem a refletir, de algum modo, na forma como ando tocando a vida? Eu sei, não é assim. Mas como é então?
Amanhã o dia estará diferente. O calor vai continuar, mas o dia estará diferente. Então, fica bem...
postado por Fábio, 4:54 PM |
Terça-feira, Dezembro 02, 2003
Breve definição (já postada em algum blógui perdido pela net)
Certa vez, pediram a ele uma auto-definição. Pensou por alguns segundos e soltou a obviedade: um cara com 23 anos, que age como se tivesse 13, mas se sente com 33. Hoje ele tem 27 e as coisas não mudaram. As diferenças de dez anos entre o que é, como parece ser e como se sente continuam as mesmas. Mas hoje, para cortar assunto, responde apenas: "Não costumo de falar de mim. É que a modéstia me impede".
Abrindo uma exceção e quebrando a cabeça para criar seu perfil, eis o Fábio, 27 anos, monoglota e ingênuo, como poucos conseguem ser. Seu sonho era se tornar jornalista ou jogador de futebol. Acabou ingressando no maravilhoso mundo da imprensa, para azar do País, que perdeu um jogador fenomenal e ganhou um jornalista medíocre.
Hoje, divide seus dias entre o trabalho como assessor sindical, as leituras no caminho casa-trabalho, trabalho-casa, devidamente interrompidos pelos devaneios, comuns a todo sonhador. Nos finais de semana, caminhadas pelas ruas de São Paulo, ao som de "As Vitrines", do Chico Buarque. Isso, claro, em seu discman mental.
É tímido como uma porta. Mas até que consegue ser um pouco mais extrovertido, quando se sente à vontade com as pessoas que estão ao seu redor. Tem um código de ética meio contramão, que o faz se sentir muitas vezes como um animal pré-histórico. Costumar dar crédito ao gênero humano, embora seus espécimes não façam por onde.
Meninas beges - II
Jeaneane Garofalo
postado por Fábio, 9:45 AM |
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